sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Partida..



Malas feitas. Tanque cheio. Pronta para mais uma viagem. Mas não era uma viagem qualquer.Essa não teria volta. Seria para sempre. Destino ? Uma incógnita.

...

Coração apertado, ansiedade, olhos atentos para o lado de fora do carro. Os olhos viam a vida retratada nas ruas, lojas, pessoas sem rostos daquela pequena cidade; sentiria falta delas mesmo sem tê-las conhecido. Esses olhos já haviam visto tudo isso antes. Mas não dessa maneira. Não tendo que ser pela última vez. Mas essa era a última vez.

O caminho para a escola...a cada segundo ia ficando para traz...daria tudo para ter de percorrê-lo de novo.

Mas por que essa recusa em ir embora?! Se era tudo o que ela queria? "Sair dessa cidade medíocre e chata"?

Às vezes por mais que odiemos um lugar é difícil deixá-lo para traz. Com o tempo nos acostumamos..e estar ali já não incomoda tanto. Ainda mais esse lugar..que estava marcado de histórias e pessoas. Ela não queria deixá-lo.

Aquelas pessoas, os amigos, os lugares, as festas..gravados na memória..com o tempo darão lugar a novas pessoas, novos amigos, novos lugares e novas festas..e não passarão de pessoas presas em fotos..histórias nunca escritas que com o tempo não serão mais contadas; se perderão no baú da mente..insondáveis.

Ela entendia que precisava ir. O futuro lhe reservaria muitas outras surpresas. Um futuro que parecia tão distante...um futuro tão esperado e aguardado..o futuro tão desejado. Agora ela tinha raiva desse futuro. Queria mais que tudo nunca tê-lo desejado. O futuro cheio de incertezas e dúvidas.

Mas de que valeria todo esforço se ela não tivesse de partir?! De que valeriam os momentos felizes se ela não tivesse para quem contá-los? Ela construiu aquilo. Era preciso.

Mas a mente é teimosa...não quer mudar. Mas de que valeria o tempo se ele não passasse? De que valeriam os dias, as horas e os segundos? Não existiriam. Assim como não existiria expectativas, não existiria a saudade.

Agora ela entendia..era tudo culpa do tempo. Mas era tudo preciso. Tudo fazia parte da transformação do seu ser.

O tempo deixa saudades..e a saudade apenas comprova que tudo não passou de mera ilusão..que foi tudo real..tudo com um objetivo..embora ela não soubesse qual era. Mas um dia ela descobriria!

De uma moça guardou aquela mania bonita de surpreender nos detalhes. De um moço aquele abraço de todos os encontros. Guardou de outro a doçura de olhar além do que se vê. E daquele, os silêncios compartilhados. De outra guardou a oração que fizeram de mãos dadas. E ainda as muitas - boas - horas de conversa no telefone. De outro guardou a disposição imediata de ficar junto. Da pequena guardou a alegria de ter com quem brincar. Da outra a lealdade dos que se querem bem. Guardou a admiração, a devoção e o carinho daquela moça bonita. Guardou a sagacidade dos olhos brilhantes de um menino. De outra guardou o humor apaixonante. De certo moço guardou a sintonia viva e palpável. Da doce amiga guardou a risada gostosa das confidências trocadas. De todos guardou as - muitas - confidências. Guardou os planos maquiavélicos daquele moço. Guardou todas as lágrimas - mas antes fez delas poesia. Guardou de outro menino a sorte da pureza do afeto inédito. E uma lista sem fim. Daquela tão importante guardou o dengo de todas as noites. De seu grande amigo guardou o significado de fidelidade - sendo ele o próprio. Guardou ainda - de alguns - o poder de fazer alegria nascer em qualquer lugar. Malas prontas. É hora de partir.

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